A Ressurreição de Jesus — O relato de Pedro - Vida de Jesus Ditada por Ele Mesmo - Parte II - Cap. XXVIII

PDF por Nova Ordem de Jesus. 11/05/2016 - 33 min leitura
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A Ressurreição de Jesus — O relato de Pedro

Queridos irmãos:

Nosso primeiro impulso ante a morte de Jesus foi de terror e instintivamente parecia querermos fugir dentre a multidão (já bastante reduzida pela retirada de muitos) temendo nós as brutalidades de que tínhamos visto fazer gala a esse populacho inculto e feroz. Nossas almas passavam por uma grande e rude prova e, quanto a mim, achava-me completamente aniquilado.

Realmente, não poderia dizer se era medo por nossas pessoas o que nos detinha, pois que eu mesmo, que levava a vergonha e a dor da primeira cobardia manifestada em nosso grupo, eu mesmo sentia-me abandonado de minha própria consciência, sob o peso do imenso infortúnio que o desaparecimento do Mestre havia feito cair sobre nós e nada me parecia já ter que perder, como se de minha própria pessoa me houvesse esquecido.

Em verdade, José de Arimatéia, Alfeu, Marcos e Tomé, na noite terrível que precedeu à crucificação, tinham dado já provas de valor muito superior à minha covarde atitude de negador do Mestre. Em compensação, Tiago e João, que também haviam seguido ao Senhor até à casa do grande Sacerdote, tinham dado eles igualmente provas de fraqueza afastando-se quando lhes pareceu correrem algum perigo, e maior cobardia ainda haviam manifestado os que fugiram desde o primeiro momento. Felizmente, a perplexidade nossa foi momentânea desta vez, resultando assim honrosamente reabilitada a nossa pequena igreja de sua cobardia anterior, pois que logo depois viu-se rodeada a cruz pelas santas mulheres que haviam estado acompanhando a Maria, a mãe, a poucos passos do patíbulo, por José de Arimatéia, por Tiago e João, filhos de Zebedeu, Tiago o irmão de Maria, Marcos, Alfeu, e eu, que fomos os primeiros a nos acercarmos dos queridos despojos. Descido imediatamente o corpo do madeiro e confiado por alguns momentos ao cuidado unicamente das mulheres, a fim de que o preparassem para seu enterro, segundo o costume de então, depositou-se no sepulcro de José de Arimatéia.

A noite nos surpreendeu na lúgubre tarefa, avisando-se as mulheres para na manhã de domingo se efetuar o enterramento como convinha, rodeando o corpo dos devidos cuidados e cumprindo todos os piedosos detalhes próprios do caso.

No primeiro momento todos manifestaram temores de que pudesse ser profanado o cadáver pelo rancor dos terríveis inimigos do Mestre, porém tranqüilizaram-se os ânimos ao observar-se o completo abandono do lugar pelo populacho, cansado de vociferar e de agitar-se como um energúmeno em volta de sua vítima, silenciosa e inofensiva.

Uma cousa, no entanto, passara já havia pouco por minha mente. Era uma idéia imperiosa que me apontava como uma necessidade imprescindível: a de ocultar o cadáver de um modo seguro e com o mais absoluto sigilo, de maneira que nem mesmo os discípulos o soubessem, enquanto não se aplacassem os ódios que a tais extremos haviam chegado. O segredo não teria sido possível guardá-lo entre vários porque estes mesmos algo teriam deixado transparecer ou teriam vagueado pelos arredores do sepulcro, chamando a atenção para ele, ou se lhe teriam acercado furtivamente com fins de devoção, ou chegariam a abri-lo mais tarde para certificarem-se de seu bom estado, ou com seus murmúrios teriam despertado a curiosidade do povo a respeito do lugar do enterro. Enfim, para que a segurança fosse completa, absoluto devia ser o segredo e para isso necessário era que permanecesse encerrado em minha consciência somente.

Por outra parte, poderia eu confiar em que o companheiro a quem comunicasse minha idéia estaria conforme com o segredo absoluto para com os demais? Aprovaria essa ação tão pessoal que vinha negar o igual direito dos outros discípulos a tudo o que ao Mestre se referia? Muito provavelmente não o aprovaria ou pelo menos discutiria a conveniência desse proceder não consultado entre o grupo dos discípulos. Não, não, um só caminho havia de verdadeira segurança: proceder só, sem nenhum auxílio.

Assim, inclinava-me a esta resolução, embora não deixassem de assaltar-me temores de impotência ao pensar nas dificuldades que a obra apresentaria para um só homem. Apesar de tudo, voltei no sábado, noite alta, com o propósito de intentar meu projeto, pensando ocultar o cadáver em outro sepulcro próximo, já ocupado. Eu nutria a ilusão de que poderia escondê-lo debaixo de outro corpo com o lençol com que ele estava envolvido. Com estes pensamentos ia caminhando em direção ao sepulcro quando me pareceu ouvir ruídos surdos de passos distantes e o rolar, pela ladeira, de alguma pedrinha, como se tivesse sido deslocada pelo choque do pé de outro caminhante noturno.

Detive-me, retendo a respiração, e depressa me apercebi de que era detrás de mim de onde os passos procediam, parecendo-me por isso mais distantes do que em realidade eram, pois quase em seguida descobri, muito próximo já, uma silhueta que por suas aparências pareceu-me corresponder à de José de Arimatéia, o qual não pouca surpresa e temor manifestou ao ouvir-se interpelado por seu nome, a essa hora naquele lugar.

Nosso encontro parecia providencial e o que separadamente nenhum dos dois talvez tivesse podido levar a cabo, juntos o efetuamos, se não com facilidade, pelo menos com melhor resultado.

José de Arimatéia também tinha pensado em procurar os meios de precaver toda a possível tentativa de profanação dos queridos despojos. Porém, ele igualmente tinha desconfiado do pouco tino dos membros da comunidade, cuja disciplina, também, não era tal que suprisse, pelo respeito à ordem, a falta de perspicácia dos demais, de maneira que, por algum descuido em suas conversações, pensava ele, ou por alguns atos piedosos praticados pelas mulheres, ou atraídos inadvertidamente, pelos mesmos afetos para o Mestre, às proximidades do lugar que fosse escolhido para seu enterramento, facilmente dariam motivo a que fosse descoberto pelos implacáveis inimigos das novas doutrinas, os quais não deixariam de enfurecer-se contra os despojos de seu fundador, com o propósito também de destruir dessa maneira todo o prestígio religioso de que tivesse podido rodeá-los. Isto mesmo não tinha cessado de trabalhar meu espírito, quer dizer, o grande dano que resultaria para a autoridade de Jesus se seus despojos chegassem a ser o alvo das faltas de consideração e de respeito de todo o gênero, nesses tempos e no meio de povos como o da Judéia, que davam um valor muito grande a tudo o que se relacionava com seus mortos, de maneira que somente o deixar insepulto um cadáver era já considerado como uma das maiores desgraças e verdadeiro ato de impiedade. O dar sepultura aos mortos, quaisquer que eles fossem, ainda mesmo dos inimigos, considerava-se em compensação como uma obra piedosa. Assim, portanto, aos restos de uma pessoa qualquer se tributavam as maiores considerações, sempre as que a mesma pessoa tivesse merecido e se, pelo contrário, os restos de Jesus, em vez de receberem honras, fossem torpemente profanados, dir-se-ia que nenhuma proteção haviam merecido de Deus nem dos homens. Teria resultado desmantelar-se assim toda a base para uma reabilitação próxima do justiçado.

Esta argumentação, apesar de demasiado humana, não carecia de base, pois que infinitos são os meios que Deus tem a seu alcance para a realização de tudo o que se propõe, vendo-se às vezes surgir os mais grandiosos acontecimentos das causas mais insignificantes em aparência. Isto foi justamente o que aconteceu com as disposições que de comum acordo tomamos José de Arimatéia e eu, com respeito ao corpo de Jesus.

Efetivamente, passados os efeitos da surpresa e depois de algumas hesitações e breve indecisão, acabamos por explicar-nos mutuamente nossa recíproca situação e combinamos agir de comum acordo. O sepulcro que eu lhe indicava pareceu-lhe situado muito próximo, preferindo também outro de mais pobre aparência. Seria, além disso, uma loucura colocar-se um corpo em sepultura alheia, porque ele seria indefectivelmente descoberto no dia em que se fosse efetuar um novo enterro. Arimatéia conhecia um sepulcro algo distante e de pobre aspecto, que havia sido abandonado por seus proprietários, os quais tinham desaparecido desde os dias da conquista de Jerusalém, talvez mortos, ou prisioneiros foram para Roma seguidos por suas mulheres e filhos, onde tinham resolvido estabelecer-se definitivamente. Tratava-se, de todos os modos, de gente pouco conhecida e sem vínculos e da qual, afinal, ninguém se havia ocupado. Havia outros sepulcros, segundo parecia, igualmente abandonados, porém não tinha eu a respeito deles a mesma certeza quanto ao desaparecimento de seus proprietários. No indicado, pois, por José de Arimatéia, resolvemos depositar o cadáver, pondo mãos à obra imediatamente.

Chegados ao sepulcro de Arimatéia, levantamos com muita dificuldade a grande pedra que o fechava, fazendo alavanca de nossos bastões. Tiramos ao cadáver o lençol sujo e ensangüentado com que estava envolvido, assim como outro pedaço de pano que rodeava sua cabeça e que também estava todo ensangüentado. Envolvemo-lo em substituição, completamente, com um lençol grande que José de Arimatéia tinha levado. Em seguida, muito agitados, pois havia-nos parecido ouvir passos de pessoas... quantas vezes nos pareceu ouvi-los nessa noite!... carregamos com o corpo e abandonamos o sepulcro, esquecendo-nos de fechá-lo novamente. Grande foi o trabalho que nos custou a condução de nossa preciosa carga por entre a escassa claridade da noite e por caminhos íngremes e tortuosos. Chegamos finalmente e conseguimos levar a feliz termo a empresa, ficando satisfeitos com isso, na certeza de que não poderia ser encontrado o cadáver. Longa tinha sido a tarefa, pois, ao terminá-la, nos apercebemos que muito próximo estava já o dia. Resolvemos retirar-nos por diferentes caminhos para evitar, por excesso de prudência, que se nos pudesse ver juntos a essas horas e nesses lugares porém antes de nos separarmos juramos solenemente que jamais falaríamos do que acabávamos de fazer nem ainda entre nós mesmos; guardaríamos, pois, o mais profundo silêncio a respeito, quaisquer que fossem as circunstâncias que pudessem apresentar-se.

Completamente satisfeitos assim, da para sempre absoluta segurança dos preciosos despojos, nos encaminhamos silenciosos e apressadamente, José de Arimatéia para sua casa, pois era de Jerusalém, e eu para a que me hospedava nas cercanias de Getsemani. Porém imediatamente, desaparecida pouco a pouco a enorme confusão que se aninhava em meu cérebro e a profunda agitação que dominava meu espírito, assaltou-me um horrível pensamento que até aquele momento, devido sem dúvida ao meu estado de ânimo, não me havia ocorrido. As mulheres iam voltar ao sepulcro em cumprimento do piedoso propósito já manifestado... Qual não seria sua dor e seu espanto ao verificar o desaparecimento do cadáver... Toda a pequena igreja se veria presa da maior desolação, certamente.... e com que direito nos havíamos apropriado do que pertencia a todos? Uma boa intenção podia acaso justificar semelhante esbulho feito aos mais legítimos sentimentos de toda a comunidade? Não bastavam para acalmar minha consciência as circunstâncias excepcionais e o fato de certa autoridade de que o mestre me havia revestido em diversas ocasiões perante os demais membros de nosso pequeno cenáculo, assim como certa consideração e deferência com que José de Arimatéia tinha sido sempre distinguido por Jesus1 e que vinha constituir certa autoridade no meio da pequena igreja, além de tudo, que não se tratava de nada permanente mas sim de um meio provisório para conjurar um mal de momento.

Cheguei a meu alojamento quando começavam já os primeiros albores do dia, adormecendo logo que me deitei, vencido por extraordinário cansaço de dois dias de intensas agitações.

Apenas teria desfrutado um curto sono quando um alvoroço desusado me despertou bruscamente, no mesmo momento em que João e as duas Marias se precipitavam para mim gritando: “Jesus ressuscitou como estava anunciado”. “Eis que, acrescentou João, as mulheres acabam de encontrar o sepulcro aberto e vazio, o lençol que envolvia seu corpo e a toalha que envolvia a cabeça ficaram ali deixados de lado.”

Grande foi o aturdimento que tão inesperada notícia me produziu. Não sabia o que se passava em mim, sendo que minha turbação foi interpretada como um efeito natural de surpresa por tão extraordinário acontecimento. Sem mais, tomou-me João pela mão e corremos, seguindo as mulheres que se nos adiantaram e seguidos pelos outros discípulos ali também hospedados.

Durante o caminho procurei orar mentalmente, pedindo principalmente ajuda ao Senhor para sair de tão difícil conjuntura e a verdade é que me senti algo mais tranqüilo e fortalecido.

O entusiasmo das mulheres e de João não parecia comunicar-se inteiramente aos demais, que pareciam mais perplexos e atemorizados que dominados pela fé e por esse estado de elevado misticismo que deveria arrebatá-los em presença de um fato de tão extraordinária transcendência. Alguns dirigiam seus olhares para a entrada do sepulcro e para as proximidades, como a procurarem sinais de uma intervenção estranha, e outros, abertamente manifestaram o temor de que tivessem roubado o cadáver, senão para profaná-lo, para impedir pelo menos que se lhe tributassem honras, convertendo-o em objeto de culto.

Eu, sem manifestar nada, ajoelhei-me e orei, sendo seguido meu exemplo por todos os presentes. Em seguida retirei-me em silêncio e minha atitude triste e circunspeta foi respeitada.

João, por sua parte, insistiu uma vez mais em que Jesus tinha ressuscitado segundo sua própria promessa, porém jamais haviam saído dos lábios do Messias palavras que pudessem aproximar-se a semelhante significado.

João, sim, tinha assegurado entre outras cousas filhas de seu caráter novelesco e exagerado que o Messias ressuscitaria ao terceiro dia de sua morte, porém Jesus nada nos disse que se pudesse parecer com isto.

O que muitas vezes nos tinha assegurado era que sua presença, depois de morto, se demonstraria constantemente no meio de nós com o fim de guiar-nos com sua influência. A mim, principalmente, me havia feito prometer, repetidamente, que jamais deixaria de pôr em prática as suas intuições.

Com isto demonstrava o perfeito conhecimento de suas condições futuras como espírito, o que é prova da excepcional elevação desse Ser tão superior, como jamais houve outro sobre a Terra.

Tinha-se valido também da palavra ressurreição, porém, mais ou menos, desta forma: “Muito breve, depois de minha morte, ressuscitarei no meio de vós para dar-vos prova evidente de minha presença a vosso lado, porém tende como certo, e não olvideis que, embora invisível, sempre estarei presente a vosso chamado e que toda a vez que me recordeis no meio de vós estarei. Ainda que vossos olhos não me vejam, nem me apalpem vossas mãos, me pressentirão vossos corações e me ouvirão vossas consciências porque a carne só pela carne é vista, o espírito pelo espírito”.

Nós tomávamos a palavra ressuscitarei por algo assim como: “Atuarei entre vós com todos os característicos da vida material”. Tampouco podíamos dar-lhe o significado que se pretende, desde o momento que os ensinamentos do Messias se referiam constantemente à influência que os espíritos livres exercem sempre sobre os encarnados e que no estado de espírito é quando o ser tem maior domínio sobre todas as suas faculdades.

A doutrina das vidas sucessivas muitas vezes foi dada a conhecer vagamente perante o público, expandindo-se em explicações muito positivas em algumas outras ocasiões; mas pouco pôde ser compreendido por gente tão materializada, que nem mesmo a idéia da alma podia aceitar mais ou menos, pois que sua religião não deixava pressentir separada a alma do corpo. O prêmio e o castigo haviam de ser experimentados pela pessoa, em sua integridade de alma e de corpo. Assim se compreendia geralmente e os ensinamentos dos doutores da lei não se afastavam aparentemente de tal critério, se bem que corriam entre o povo algumas afirmações que encerravam implicitamente a idéia da alma com um corpo novo, quer dizer, a doutrina dos renascimentos.

Porém, disse Jesus, que ele não tinha vindo para renovar a lei mas sim para confirmá-la, submetendo-se a práticas como a da circuncisão e outras não menos características da lei mosaica. Não podia portanto inculcar, tão abertamente, doutrinas que chocassem, no íntimo da limitada compreensão dos hebreus, com as doutrinas já estabelecidas. Por isso, pouco se detinha o Messias na explicação fundamental da verdadeira doutrina, limitando-se a inculcar sua celebrada concepção de “Ama a Deus sobre todas as causas e ao próximo como a ti mesmo. Esta é a lei e os profetas”. Oh!... Quanto se elevava, ao desenvolver este tema favorito de suas dissertações!

Era então quando, remontando-se demasiado nas asas de seu delicado sentimento, manifestava-se entre os resplendores de sua essência superior, coando-se entre suas entusiásticas palavras o reflexo encantador de suas visões celestiais. Tornava-se então incompreensível para seus ouvintes incapazes de se elevarem às alturas da intuição e da verdade divinas, que embora a nosso derredor palpitem, somente as almas superiores tais palpitações percebem. A vida universal revelava-se então perante nós, sendo a vida humana somente um seu detalhe e o espírito humano, ignorante e abjeto, chegaria até à glória de seu Pai, entre os resplendores que rodeiam seus divinos mensageiros. Porém, nesses casos, a perplexidade manifestada pelos que o rodeavam e os olhares atônitos de todos o chamavam à realidade e bruscamente mudava o quadro de sua exposição como querendo manifestar que a teimosia de todos, no vício, tornava-os incapazes dessas concepções e unicamente dignos do fogo eterno do inferno. Deste modo, desde as alturas do infinito concluía por descer às concepções religiosas vulgares; porém, fazia-o com tal habilidade que desaparecia a confusão que tinha resultado do seu primeiro impulso francamente exteriorizado, para ficar, com lógico encadeamento explicado, o conjunto dessas noções simples do bem e do mal, do prêmio e do castigo, que encontram natural aceitação nos espíritos menos desenvolvidos. A seguir acrescentava muitas vezes alguma engenhosa parábola que ilustrasse o que desejava inculcar e terminava, a maior parte das vezes, com afirmações categóricas, repetidas com insistência sob diversas formas e sempre com a maior energia, o que muito impressionava o seu auditório. Aos seus discípulos, entretanto, tinha por costume explicar-lhes detalhadamente as grandes verdades das vidas sucessivas, da pluralidade de mundos habitados, das verdadeiras formas da justiça divina, do progresso como lei essencial do Universo intelectual, sendo que seus continuados esforços resultavam quase de todo estéreis, pois nós mesmos dispúnhamos de muito curta inteligência e cheios tínhamos nossos espíritos das preocupações mais vulgares do judaísmo popular. Existiam precisamente no meio dessas preocupações, certos relatos de profetas que tinham sido transportados com seu corpo para o céu e cujo regresso de alguns era esperado. Assim se disse de Moisés, que tinha desaparecido no meio de nuvens, e de Elias, que havia sido arrebatado num carro de fogo, assim como realmente os hebreus pareciam não conceber a vida sem o corpo, o que, apesar de tudo, ainda hoje mesmo, muitos homens, não de todo incultos, não entendem.

Não se trata, naturalmente, da vida orgânica derivada de complicados fenômenos físicos, vegetativos, mas sim da existência superior do espírito como tal espírito, que atua em outro plano, com as faculdades e propriedades que lhe são inerentes e que nada têm que ver com o mundo da matéria, senão enquanto esta possa ter alguma influência sobre a envoltura grosseira dos espíritos muito inferiores.

O certo é que, pouco a pouco, à medida que os apóstolos foram convencendo-se que não existia nenhum interesse pelo corpo de Jesus por parte de seus inimigos, perplexos eles próprios, cada vez mais, por seu estranho desaparecimento, e com a afirmação constante de João, foram admitindo tacitamente a possibilidade da ressurreição, possibilidade que terminou por converter-se, finalmente, em um dogma, apesar de, na realidade, isto ter sucedido quando nenhum testemunho existia já desse tempo. Tudo o que apareça em contrário foi obra das perturbações por que atravessou a Humanidade nos tempos que se seguiram, cheios de desordens e lutas políticas e religiosas.

Naturalmente, jamais ocupou algum lugar em meu espírito o suposto fato, e também tinham-se acalmado paulatinamente os escrúpulos de minha consciência, razão por que, ainda que me resolvesse a isso, não teria podido divulgar a verdade sem risco para a nova comunhão da parte de seus inimigos, que não teriam deixado de se aproveitar dela para acusá-la de superstição e embuste. Sobretudo, havia acalmado meu espírito um sonho extraordinário para mim, naqueles momentos. Foi na noite seguinte à de nossa façanha, inteiramente justa e inocente por seus fins que, antes de entregar-me ao sono, orei muito, de joelhos, apoiado a uma cadeira. Adormeci, quando, inopinadamente, vi o Mestre descendo do alto do aposento na minha direção. Seu semblante apresentava-se-me carinhoso e risonho, com uma expressão de benevolência realmente angelical. Eu caí de joelhos durante o sonho, dizendo: Senhor, por que me procuras? — Aproximou-se principalmente sem mover as pernas, como se deslizasse perto do chão e levantando as mãos, como para abençoar-me, mostrou as feridas dos cravos, vendo-se também as dos pés. Não temas, Pedro, disse... tão fraca é já a tua lembrança do Messias, do teu Senhor?... Senhor! Senhor! Tu sabes quanto te amo, perdoa, pois, minhas fraquezas e ignorância que me fizeram silenciar a respeito de tua ressurreição. Ainda vendo-me, duvidas, Pedro, ainda? Eis-me com minhas feridas ensangüentadas, toca-me, pois, que é meu corpo e acreditarás. Estendi os braços animado pelo convite, para certificar-me da verdade, porém despertou-me um golpe brusco, tendo perdido o equilíbrio por algum movimento durante o sono, indo dar com a boca contra o chão, ainda que com pouca violência, devido à minha posição de joelhos e por estar apoiado à cadeira.

Jamais havia tido eu um sonho tão lúcido, e, desperto já, perdurava ainda com a maior evidência a impressão do Mestre, seus próprios eflúvios, diremos assim, inconfundíveis com os de outro qualquer.

Certamente o sonho não passava de ser um sonho resultante, ao que parece, da continuada impressão que trabalhava o meu espírito a respeito da ocultação do cadáver e afinal nada tinha dito o Jesus da aparição referente ao que me preocupava. Em todo caso teria confirmado sua ressurreição e esta não era verdadeira desde que eu mesmo tinha ocultado o cadáver. Mas o sorriso de Jesus e a sua intenção de abençoar-me fizeram-me crer que não tinha merecido sua censura, e suas palavras referentes à ressurreição interpretei-as como querendo dizer: Faze de conta, tu também, que ressuscitei. Sem dúvida, esta interpretação me convinha, porque justificava meu silêncio e na verdade assim me pareceu, contribuindo isso para que se tranqüilizasse o meu espírito.

Quanto à visão de Madalena, que a tradição fez chegar até vós, respeitemo-la dentro das intimidades do sentimento; porém ela certamente em nada podia referir-se ao fato da ressurreição material. Em compensação, depois de alguns dias fizeram-se muito freqüentes as intervenções do Messias entre nós e em duas ou três ocasiões chegou a tornar-se visível para todos durante nossas orações em comum. Certamente a nossa fé e o nosso entusiasmo nos hão de ter enganado em mais de uma ocasião a respeito das ditas intervenções, porém, sem dúvida, foram de tal evidência algumas delas, que deviam necessariamente proporcionar-nos a mais profunda convicção a respeito de sua realidade.

Quanto às relações com os mortos em geral, o Senhor no-las havia indicado sempre como um escolho muito perigoso para os homens, definindo até como um pecado a sua prática continuada. “Recebei as comunicações, dizia, porém, não as provoqueis. O que eu vos digo, digo-vô-lo em nome de meu Pai celestial e quando eu não esteja mais, visivelmente, entre vós, vos chegarão entretanto minhas intuições, e sempre que o Pai o determine ou vosso Messias o julgue necessário, ouvireis em vossas consciências as vozes dos celestiais mensageiros, sem que nada peçais e nada pergunteis.” Apesar de tudo, na noite de sua oração no horto, Jesus nos indicou os meios eficazes para nos pormos em comunicação com as almas dos mortos, não sem insistir no perigo dessa prática que devia ser destinada para casos muito especiais somente. Porém, como Paulo não ouviu os ensinamentos diretos do Mestre mas que os recebeu por suas intuições, sucedeu que a igreja do Ocidente que ele encabeçara, entregou-se às práticas diárias das evocações, formando-se desse modo o corpo de suas doutrinas e de seu culto. Tudo isso foi paulatinamente passando também à igreja do Oriente, sem que chegassem, entretanto, a ser nossas igrejas centros de evocações, como as do Ocidente, onde apareceram também alguns endemoninhados, que se nós alguns, bem poucos, tivemos, não saíram de nossas igrejas, sim que nelas se libertaram do espírito do mal, como o próprio Messias nos havia ensinado. Justo é também dizer, que em compensação muito maior era o movimento e o progresso das igrejas do Ocidente que o das nossas. Elas haviam marchado com um espírito mais novo e vigoroso; nós, em compensação, nos havíamos circunscrito à simples recordação e repetição do que fora dito pelo Mestre, procurando, como ele, nos manter dentro do espírito judaico. Esta era, sem embargo, uma má interpretação de nossa parte, porquanto os propósitos do Senhor envolviam uma fundamental reforma do culto e de seu espírito, fazendo descansar tudo sobre a idéia do amor e orientando tudo para o progresso, sobre a base dos sucessivos renascimentos. As transações que aceitava e proclamava com o velho espírito das doutrinas hebréias eram as que não se opunham ao triunfo de seus ideais. Estes foram levados avante com muito maior vigor no Ocidente, fracassando, porém, o que devia ser fundamental, a lei dos renascimentos. Em compensação, quase imediatamente, converteu-se em pouco menos que um dogma, a chamada “Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo” e fez-se uma prática assídua da “Ceia Pascal” ou “Santa Ceia”. Mas este ponto necessita algumas indicações referente às relações mantidas entre Paulo e os Apóstolos, a respeito do que me ocuparei tão depressa a oportunidade me permita. Unicamente quero dizer que nas ocasiões em que Paulo nos visitou, nos perseguia com suas perguntas, colocando-nos freqüentemente em situação embaraçosa com a natureza das investigações que pretendia levar a cabo e a respeito das quais nunca ficou satisfeito. Por minha parte, temia sempre que quisesse investigar o referente à ressurreição de Jesus, porém nunca se referiu a ela senão como a um fato conhecido e que está fora de discussão. Desde o princípio não se demonstrou Paulo muito disposto a reconhecer a nossa autoridade e talvez isto foi um bem. Nós, em troca, nunca lhe demos o título de apóstolo e foi um erro de nossa parte porque não podia ser mais evidente o seu apostolado. Reconheciamo-lo, sem dúvida, como o chefe da igreja do Ocidente e mantínhamos boas relações com ele, pareceu-nos que carecia dessa humildade e mansidão ensinadas pelo Mestre e que deviam distinguir os seus apóstolos. Muito nos ajudou, em compensação, ao amparo de nossos numerosos pobres com o óbolo da igreja do Ocidente.

PEDRO

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