Continua a narração da missão de Jesus - Vida de Jesus Ditada por Ele Mesmo - Cap. IX

PDF por Nova Ordem de Jesus. 03/03/2016 - 64 min leitura
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Continua a narração da missão de Jesus

No presente colóquio, irmãos meus, continuaremos com a exposição de minha missão.

Durante sua curta aparição como Messias no meio dos homens, Jesus teve de renunciar de dar-se a conhecer porque seu poder residia no título de filho de Deus, título cheio de promessas, porém cheio também de obscuridade do desconhecido, do qual se servia como motivo para adquirir ascendência sobre as massas. Mas em suas conversações particulares Jesus deixava compreender que a filiação de que se honrava, honraria também a todos os espíritos chegados à emancipação da alma em meio da natureza carnal.

A unidade de Deus jamais se viu comprometida por Jesus. Os que fizeram os milagres foram os que converteram Jesus em Deus.

Deus distribui a cada um a força e a inteligência na proporção das honras ganhas na luta dos instintos da matéria com as emanações divinas da imortalidade espiritual.

A imortalidade da alma, ao pôr em evidência ante o espírito o objetivo de suas existências sucessivas na matéria, o impele ao desprezo de toda a dependência carnal, elevando-o em compensação para a glória da missão divina.

Os messias são os filhos de Deus porque demonstram a Deus, o explicam.

Agora posso falar assim, porém antes era necessário que me rodeasse de prestígio, para o qual não convinha que se explicasse o princípio sobre que descansam as honras de Messias. Era necessário dilatar o sentido moral da Humanidade e não convinha proporcionar-lhe a possibilidade de discutir meus direitos de filho de Deus. Era necessário conseguir o resultado sob proporções fora do comum, sob pena de ser impedido aos primeiros passos.

Apesar disso, repetidamente me repreendi a mim mesmo por essa tortuosidade de caminho e, quando me encontrava a sós com algum de meus discípulos, se me apresentava como uma ocasião favorável para lançar em um espírito perspicaz o germe da verdade, eu me confiava por partes, pronunciando frases misteriosas, de cujo significado esperava que, talvez, o porvir tirasse algum proveito para a verdade. Dizia-me o confidente dos profetas e dos mártires, surpreendidos pela morte; em seguida, chamado pelo sentimento de minha posição, reprimia manifestações e recomendava aos que haviam sido testemunhas de minhas expansões entusiastas, guardarem o maior segredo a respeito do que tinham ouvido.

Em minhas conversações procurava associar a crença nos dogmas estabelecidos com a doutrina das encarnações sucessivas dos espíritos, falando ao mesmo tempo do inferno e da santidade de meus direitos de filho de Deus. Mas no dilatado horizonte que se estendia diante de meus pensamentos os fatos viam-se justificados pelos propósitos. Eu dirigia minhas esperanças para o porvir e colocava as deliciosas emoções de minha alma diante das harmonias com que sonhava, vendo-se elas justificadas ainda neste mesmo momento em que volto para completar minha obra, valendo-me novamente de Deus.

Eu misturava a lei antiga com a nova, das quais resultavam essas parábolas que freqüentemente careciam de clareza, essas contradições aparentes, envoltas na rapidez de minhas exposições e mal advertidas pela pouca perspicácia do auditório, e essas apreciações sobre a justiça divina, cheias ao mesmo tempo de misericórdia e de eterna vingança.

Irmãos meus, inclinemo-nos perante a majestade de Deus e confessemos a pobreza de nossa natureza.

Eu dizia a meus discípulos:

“Vós todos sois filhos de Deus e o último de vós terá que trabalhar para chegar a ser grande e forte.

“Faz-se mais festa na casa de meu pai quando entra nela um espírito recém convertido do que pela perseverança de dois justos.

“A vontade e a emulação livram o espírito das humilhações da carne. O amor de Deus inspira o amor das criaturas, que são a obra de Deus.

“Convertei-vos em depositários de minha lei; ela é uma lei de amor. A lei de amor não diz: dente por dente, olho por olho; ela diz: perdoai a vossos inimigos; orai pelos que vos caluniam; levai, sem fazer alarde, vossa esmola à casa do pobre. Se vos esbofetearem uma face, apresentai a outra, porque os homens cedem antes à ternura da virtude do que à justiça das represálias.

“Habitai com os inimigos de Deus e não eviteis as mulheres de má vida, posto que o dar exemplo é uma obrigação para os que trabalham na vinha do Senhor, e a proximidade do vício não pode manchar o justo”.

Eu apresentava exemplos favoráveis para as inteligências daqueles a quem eles iam dirigidos e atraía com conversações familiares, nas festas, encontrando com freqüência aí em que aplicar meus preceitos.

Lembro-me de um fato que teve lugar em uma casinha da montanha que domina o vale de Sichem.

Estava cansado e enquanto repousava esperando meus discípulos que tinham ido renovar nossas provisões, comecei a elogiar a limpeza que se observava no meio de tanta pobreza, com o propósito de entabular conversação com uma mulher que se mantinha respeitosamente de pé diante de mim.

Para estes lados de Jerusalém havia muita população samaritana, desprezada pelos hebreus.

“Senhor, disse-me essa mulher, já que és profeta, ensina-me a mim também, porque a lei de Deus está encerrada no templo de Jerusalém, ao passo que nós temos que adorá-lo aqui.

“Mulher, lhe respondi, Deus não tem mais que um templo e esse templo está em toda parte.

“Os homens adorarão a Deus em espírito e em verdade; a hora não chegou ainda; mas a luz dará origem à verdade, e eu vou predicando a luz.

“Crede-me, sobre esta montanha, como no templo de Jerusalém, Deus vê os corações e favorece os justos. Sobre esta montanha, como no templo de Jerusalém, não há uma fibra de erva que passe inadvertida aos olhos de Deus. A lei de Deus não está encerrada em um templo, ela resplandece em todos os corações.”

Irmãos meus, a melhor prova de vossa aliança com Deus é a de reconhecer dita lei em todas as partes, inclinando-vos sob a prova como em presença de suas bênçãos, adorando o Pai com os pensamentos e com as obras, louvando-o tanto no meio dos sofrimentos como no meio da prosperidade.

Demonstrai a lei de Deus com a retidão de vossa vida; convertei os homens em justos, fazendo-os felizes, e sede felizes vós mesmos mediante a fé. Recordo-me ainda de uma festa em que a abundância e a alegria reinavam entre os presentes, esquecendo-se todos dos cuidados e dos sofrimentos da vida. A alegria desenhava-se em todos os semblantes e a mesa colocada no meio de um pátio que formava jardim, era banhada por alguns raios de sol, apesar da abóbada verdejante que a cobria. Os jovens dirigiam-me tímidos olhares, os homens, as mulheres e as crianças rodeavam-me e todos queriam dar-me o lugar de honra. Eu aceitei, assentando-me à cabeceira da mesa, indo meus discípulos, que me haviam acompanhado em número de quatro, ocupar o outro extremo. Demonstrei-me amável e conversador nessa noite. Meus olhares e meus sorrisos se dividiam entre os comensais, iluminando-se com o brilho da geral alegria.

Assim procedi sempre, tomando as atitudes que correspondiam às circunstâncias em que me encontrava e jamais em uma festa ou em uma reunião de amigos me viram desejoso de silêncio ou distraído por penosas preocupações.

Acostumado à vida nômada, renegava da família e da pátria para melhor honrá-las, na elevada expressão destas palavras: — Família de homens — Pátria universal!

Eu tinha fanatismo pelos direitos da alma até à renúncia completa das esperanças humanas; porém nos casos de minha presença entre os homens, dava as seguranças do apoio divino para os que soubessem dirigir bem suas famílias e para a justa e amorosa direção das mães.

Minha doutrina baseava-se na fraternidade humana e as massas comprimiam-se ao meu derredor para ouvir estas palavras, das quais eram pródigos meus lábios:

“Deixai que se aproximem a mim os mais pequenos e os mais fracos.

“Eu vim para alegrar aos tristes e para dizer aos felizes: Sede os servos dos pobres, que o Deus de amor e de justiça vos recompensará.

“Vós todos sois irmãos e o servo vale tanto como o senhor na casa de meu pai.

“O que se humilha será elevado. Humilhai-vos para servir a Deus; tão-somente os humildes serão glorificados.

“Chamai, e responder-se-vos-á; batei, e abrir-se-vos-á. Aprendei minha lei e divulgai meus mandamentos por toda a Terra, amando-vos uns aos outros. Não procedais como os hipócritas que se prosternam diante de Deus para serem observados pelos homens, que oram com o coração cheio de cólera e ciúmes; colocai diante das portas do templo de Deus, vossos desejos de fortuna terrestre, vossas esperanças de alegrias mundanas, vossas fraquezas de amor próprio, vossos pensamentos impuros, vossas baixas concupiscências, para que a graça desça sobre vós com a prece.

“Amparai a viúva e o órfão.

“Livrai ao pecador de sua vergonha, mostrando-lhe os braços sempre abertos para recebê-lo.

“Descobri o vício, desmascarai a impostura, mas fazei penetrar em todos os culpados as palavras de misericórdia, a promessa de perdão.

“A esmola feita com ostentação não é agradável ao Senhor, nosso Pai, e o óbolo da viúva tem mais valor aos seus olhos do que os milhões do rico.

“A esmola não é proveitosa para o que a dá, senão quando se a rodeia do maior mistério. Guardai portanto o secreto respeito das misérias que tiverdes aliviado, e que vossa mão esquerda não saiba o que a vossa direita tenha distribuído.

“Dizei: creio e obrai. A atividade está para a fé, assim como o calor está para o amor; um sinal de vida.

“Meditai sobre minhas palavras e não lhe deis um sentido diferente daquele que têm.

“O fervor não consiste na abundância das palavras e na petulância da ação, senão na modéstia da caridade. Ele honra o espírito sem fazê-lo brilhar entre os homens. Ele dá à alma um terno ascendente sobre as almas, porém, não a impele para a opressão, para a dominação, para a prepotência do mando. Faz florescer a sabedoria, não arrasta o espírito para a perturbação do orgulho e do poder, para as paixões tumultuosas da grandeza humana, na temeridade da ambição das honras humanas.

“Pregai em meu nome e garanti minha presença, porque meu espírito continuará ainda em vosso meio.

“Permanecei fiéis à minha palavra e consolai-vos dizendo: O Senhor está conosco.

“Tomai-me como exemplo; sou pobre, permanecei pobres; sou perseguido, sofrei perseguição, e que o Deus de paz dite vossas palavras.

“Esquecei os ultrajes, praticai o amor e orai com um coração puro.

“O ferro e o fogo, o abismo e o espírito das trevas não prevalecerão contra vós.

“Eu sou aquele que Deus enviou para dizer a verdade aos homens.

“Sou o laço de amor.

“Sou a porta da pátria feliz e as portas do inferno não prevalecerão contra mim.

“Sou aquele que foi, que é e que será.

“Não explico estas palavras porque vós não as compreenderíeis; mas dia virá em que todos os homens poderão compreender a verdade.

“Permanecei fortes no amor. Sou vosso Senhor e vosso pai e estarei convosco durante todos os séculos mediante o poder de Deus e por efeito de minha vontade.

“Não desembainheis jamais a espada; quem fizer uso da espada perecerá sob seus golpes.

“Melhor seria que não tivésseis jamais nascido do que esquecer meus ensinamentos, porque a justiça de Deus pesa com maior rigor sobre os pais do que sobre os filhos; sobre os ministros infiéis do que sobre a massa dos pecadores.

“Ide por toda a Terra e anunciai a palavra de Deus, proclamando-vos seus profetas. Perdoai os peca

dos. Tudo o que vós perdoardes aqui, perdoado será no céu, e a graça acompanhar-vos-á enquanto seguirdes minha lei”.

A justiça de Deus quer todavia que Jesus seja vossa estrela condutora em meio dos erros e perigos, porém manda que as palavras de outros tempos sejam arrancadas da treva que as envolvia para resplandecerem de luz divina e para iluminarem os espíritos que se encontram agora mais bem dispostos para receber a luz do que na época em que Jesus vivia como homem entre os homens.

A doutrina de Jesus demonstrava a igualdade entre os espíritos ao sair da mão do Criador, sendo a diferença que se estabelece depois entre eles o resultado do adiantamento mais ou menos rápido de cada um de acordo com a irradiação do amor para com a família universal, cujos membros são todos irmãos e devem ajudar-se por meio da caridade e da abnegação. Quanto maior é o progresso dos espíritos, tanto mais sentem os deveres da fraternidade. Quanto mais adiantados são os espíritos, tanto mais sentem a tendência generosa e o ardor do sacrifício em favor de seus irmãos como expressão do amor fraternal. Com a palavra caridade eu não entendo tão-somente a esmola e a falta dos sentimentos do ódio senão a compaixão íntima da alma por todo o sofrimento. Com a palavra devoção não quero designar unicamente a exaltação passageira da alma em busca de Deus, impelida talvez por um sofrimento momentâneo, senão o sentimento da prece na associação contínua com todos os sofrimentos e a tendência permanente de participar de todas as misérias, todas as vergonhas, todos os conflitos da alma. A palavra amor não encerra a explicação das ternuras entre os aliados terrestres, senão que impõe o bem por meio da palavra, das obras do esquecimento de si mesmo em beneficio dos demais mediante a firmeza na proteção de nossos semelhantes e o cumprimento de todos os nossos deveres fraternos, humanos.

A doutrina do amor, baseada na igualdade e na fraternidade; eis a causa do prestígio de Jesus no meio da Humanidade. Veio trazer a lei de Deus a um mundo muito novo para podê-la compreender, porém lançou os alicerces de sua obra, que seria imortal, e essa obra continua seu desenvolvimento. Ele veio para ensinar a lei de sacrifício, e, se bem que os sucessores de seus apóstolos, que estavam na obrigação de caminhar entre a humildade e a pobreza, para honrar a lei e obedecer ao mandamento, não respeitaram a palavra do mestre, virão discípulos mais dedicados que saberão cumprir ditos ensinamentos, repetindo suas palavras, as quais não terão jamais contraditores.

Irmãos meus, eu sou o Messias e o fundador da Igreja Universal.

Retorno agora para repetir tudo o que já disse, imprimindo o cunho da grandeza divina às palavras humanas.

“A presença do espírito resplandecerá no meio das trevas e as trevas serão dispersadas. A luz ilumina a todo homem de boa vontade.

“Os homens não me conheceram porque não possuíam a verdadeira luz, porém me reconhecerão ao adquirir mais luz, iluminados pelas claridades do espírito enviado pelo Senhor.

“Felizes os que acreditarem, porque caminharão na minha lei; felizes os que seguirem meus mandamentos, porque verão a Deus.

“É um erro fatal afirmar que Jesus veio trazer a espada pois eu sou o laço de amor, tendo dito: Amai-vos uns aos outros e meu Pai vos amará.”

Erros realmente fatais são os que têm dado lugar a alegrias sacrílegas no meio do sangue e dos horrores das hecatombes humanas, oferecidos ao Deus dos exércitos, quando não são mais que delírios pela possessão de bens efêmeros no meio do triunfo das baixas paixões e da própria submissão ao império da maldade e dos gozos vergonhosos do vício!

Eu disse:

“Permanecei humildes; não vos deixeis dominar pela ambição dos bens terrenais, nem pelo desejo de poderes mundanos.

“Os que se apegam à Terra não me podem seguir. Meu reino não é deste mundo.

“Apoiai-vos em mim e eu vos conduzirei à vida, e vos darei a vida, porque a vida sou eu.

“Eu sou o bom pastor; quando uma ovelha se tresmalha, eu procuro-a e conduzo-a ao rebanho.

“Minhas ovelhas são os filhos dos homens; fazei como eu faço e reine a alegria na casa do patrão quando uma ovelha extraviada volta ao redil.

“Deixai vir a mim as crianças e também os pobres, os pecadores e as mulheres de má vida, porque se a infância precisa de  luz  e  de apoio,  os pobres são meus preferidos, os pecadores pedem auxílio para poder entrar na nova vida, e as mulheres de má conduta apegam-se a um vaso de argila, quando têm ao seu alcance um vaso de ouro. O vaso de argila é o falso amor dos homens, e o vaso de ouro é o amor de Deus que não perece.

“Permanecei fiéis à minha doutrina e propagai-a por toda a Terra para que os homens não estejam divididos e só exista uma religião e um templo.

“Fazei o que vos digo, arrancai a erva má, lançai ao fogo a planta seca, separai o trigo do joio e caminhai pelo meio das ruínas edificando de novo.

“Mas cumpri a lei com doçura e amor. E preciso compadecer-se da pobre avezinha e recordar também que, como ela, tudo o que vive depende de Deus.

“Caminhai e repeti minhas palavras. O céu e a terra passarão, porém minhas palavras não passarão, porque a voz do espírito deve repercutir em todo tempo.

“Façamos resplandecer minha identidade, irmãos meus, com o paciente encadeamento dos pensamentos e a franca exposição de minhas obras. Humilhemo-nos juntos. Aceitai-me como mediador, posto que me vos ofereço e venho para libertar-vos dos homens de má vida.

“Rompei a cadeia que vos liga ao egoísmo, ao orgulho, ao vício, à tibieza, ao desalento, porque venho libertar-vos do pecado e da morte”.

Eu sou sempre aquele que conduzo para a vida e vos digo:

“Vinde a mim, os que chorais, pois eu vos consolarei.

“Vinde a mim, pobres e pecadores, humildes e abandonados, e eu vos darei a paz e o calor”.

Meus discípulos estavam cada vez mais convencidos da grandeza de minha missão, e a familiaridade de nossas conversações particulares não diminuía o respeito de suas demonstrações diante dos homens. Imitadores de minhas maneiras e de meus gestos no modo de falar, eles recebiam honras de todas as partes, refletindo-se sobre minha pessoa, a quem não perdiam as contínuas oportunidades que se lhe apresentavam para designarem-me com os qualificativos de Senhor e de Mestre, querendo com isto demonstrar o lugar que me reservavam no meio deles.

Eu resignei-me à honra desse cargo de mestre para dirigi-los, porém empregava todos os argumentos para fazer-lhes compreender a divina essência da palavra irmão, reconhecer a elevação da alma no meio das mais humildes posições do espírito e a saber adquirir toda a força necessária para suportar todas as humilhações presentes com a celeste esperança da glória futura.

“Eu sou vosso pai espiritual, porém este caráter me obriga, mais que a vós mesmos, o emprego de maior paciência e doçura.

“Sou vosso Senhor, quero dizer, vosso diretor, vosso defensor; mas se alguém entre vós me julgasse indigno destes títulos, estaria no dever de advertir-me, porque o discípulo vale perante Deus tanto como o mestre, e porque é indispensável que exista entre nós uma confiança ilimitada, para poder alcançar o objetivo que nos temos proposto.

“Oremos juntos para que Deus nos ampare, mas seria preferível que o discípulo perecesse antes que o mestre, porque a cabeça é mais útil do que o braço e porque a ruína do senhor produziria também a ruína de seus servos.

“Honrai-me, porém não me prodigalizeis juramentos que se refiram ao porvir, porque o espírito está pronto, porém a carne é fraca. Eu vos digo: muitos de vós me abandonarão no caminho do sacrifício.

“Os dispersos não se reunirão senão para tornarem-se a dispersar. Tão-somente a cabeça é forte. A cabeça sou eu, os membros sois vós.

“Não temais. A prova que está para chegar suportai-a como a rajada de um furacão.

“Os messias ressuscitarão em espírito e este espírito brilhará no meio das trevas, guiará vossa nau por cima das agitadas ondas, sua voz dominará a tempestade e sua palavra anunciará o novo dia.

“Vós percebereis o espírito pela influência de doces esperanças que se filtrarão em vossa alma e pela força que duplicará vossas forças.

“Percebereis o espírito pelo sopro divino que passará por cima das vossas cabeças e pelo calor que penetrará em vossos corações. Vereis o espírito no meio dos resplendores, que iluminarão vossas almas e ninguém poderá enganar-se.

“Mas escutai-me e preparai o reino de Deus praticando a dedicação e o amor, a prudência e o desprezo pelas honras.

“O mundo encher-vos-á de escárnio e muitos vos odiarão, porém sofrei-o por meu amor, dizendo sempre: O Senhor está conosco e nós somos seus membros. Tenho ainda outros membros: são os pobres e quando vejais aos pobres, lembrai-vos destas minhas palavras.

“Dentro em pouco eu não existirei mais; porém meu espírito vos acompanhará e vos ditará minha vontade como se eu estivesse ainda entre vós.

“Não acuseis ninguém por minha morte. Meu pai me mandará o cálix da amargura e eu o exaurirei até o fim.

“Mas ponde em prática, depois de minha partida, o que até agora temos praticado juntos, e espalhai minhas palavras como as tenho dito, sem substituir-lhes nada nem acrescentar-lhes nada.

“A Terra se renovará e minhas palavras serão compreendidas através dos séculos; eu vos repito: o espírito ajudará ao espírito e o reino de Deus se estabelecerá, por obra do poder do espírito.

“O espírito lançará a palavra e a palavra será semente.

“Muitos de vós verão o reino de Deus.

“Estas palavras não podeis compreendê-las e tenho que deixar-vos na ignorância, porque o momento não chegou para que vos sejam explicadas; porém muitos as comentarão e eu voltarei devido a isto e a outras cousas, porquanto meu dia não está concluído e deixarei, morrendo, erros e dúvidas que meu Pai me permitirá dissipar.

“A verdade semeia-se em um tempo e os frutos da verdade recolhem-se como colheita, em outro tempo. Mas a palavra de Deus é eterna, e todos os homens a receberão, porque a justiça de Deus é também eterna e porque sua presença manifesta-se em todos os tempos.”

Aprendamos hoje, irmãos meus, a justiça destes ensinamentos e honrai-me com a mesma atenção que prestavam meus discípulos. Avancemos pelo caminho do engrandecimento e deixemos divagar os pobres de espírito, convertendo entretanto a palavra de Deus em nosso alimento espiritual. Deus manda a todos os mundos instrutores, mas a cada mundo lhe estão destinados como instrutores espíritos do mesmo mundo. Os Messias são instrutores avançados, cujos ensinamentos parecem utopias. Minha missão não podia impor uma regra de conduta em um século de ignorância, tendo que limitar-se a fazer nascer idéias de revolução nos espíritos e prepará-los para a renovação do estado social futuro. Meus apóstolos não deviam ser homens de gênio, nem homens do mundo. Era necessário que eu os escolhesse entre a gente simples e trabalhadora, para instruí-los e imprimir-lhes uma direção justa, sem ter que obrigá-los à renúncia dos gozos do espírito e das comodidades da fortuna. Meus laços de família não me embaraçavam a execução de minhas resoluções, porque desde a infância sentia-me dominado pela idéia de sacrificar tudo em aras desses ideais e porque me impelia o desejo do bem de uma família mais preciosa para o apóstolo do que possa ser a família carnal para o homem.

Minha resolução inabalável de sacrificar minha vida com o martírio, parecia-me uma ordem à qual devia obedecer sob pena de me ver retirado o título de apóstolo, o patrocínio de Messias e esse prestígio de Salvador e de Filho de Deus, com que o Pai me havia agraciado e do qual a Humanidade esperava especiais benefícios.

Meus conhecimentos de apóstolo concentravam-se para o porvir, e a miúdo, enquanto falava aos homens do presente, dirigia-me indiretamente aos homens do porvir.

Minha voz tornava-se então profética e meus discursos sofriam a influência da difusão de meus pensamentos quando atingiam as alturas da verdade e que esta verdade tinha que ser levada com a rigidez dos dogmas estabelecidos.

As perguntas que tinham o objetivo de fazer-me cair em contradição, eu respondia de maneira tal como que para desconcertar ao que perguntava, procurando ao mesmo tempo infundir respeito nas multidões com a autoridade do olhar, do gesto e da palavra, sempre resoluta e incisiva.

Atacando de frente todos os poderes e todos os prejuízos sociais, do nascimento e das riquezas, haveria facilitado a revolta, se ao mesmo tempo não tivesse predicado a glória que se encontra nas humilhações diante da felicidade eterna. Pobre e livre, eu falava com firmeza, impelido por um entusiasmo indescritível ao referir-me às liberdades espirituais.

“Dai vossos bens aos pobres e segui-me. É mais difícil um rico entrar no céu do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha.”

As figuras atrevidas, as comparações de colorações fortes eram apropriadas para um povo mais fácil de comover-se do que compreender razões, por cujo motivo a miúdo tinha eu que lançar mão destes meios poderosos para abrir brecha no espírito de meus ouvintes.

Meus discursos, que sempre terminavam com uma citação apropriada ao caso ou com uma sentença, ficavam como que estampados, e minhas formas de linguagem em nada se pareciam com as dos outros oradores.

Eu fazia denúncia perante a Divindade de todos os vícios que descobria.

O castigo do mau rico inspirava-me quadros sombrios e eu lançava anátemas contra a exploração do homem sobre o homem; mas nada havia de preparado em minhas palavras, cuja elegância de associação como brilhantismo de pensamento foram sempre por mim descuidados, porquanto dirigia-me a espíritos que convinha mais bem surpreender do que seduzir com as belezas das formas.

Os puros gozos de minha alma tinham sua manifestação exclusivamente em meio dos amigos, e as conversações tranqüilas e afáveis faziam-se-me cada vez mais necessárias.

Irmãos meus, santas companheiras minhas, tornai a ser novamente nestes momentos a fonte das alegrias retrospectivas do espírito. Sede o descanso em meio de minhas agitadas recordações, para que as imagens consoladoras, ao apresentarem-se diante de meus olhos conjuntamente com as sombras pavorosas, evitem o esforço para abreviar a narração sob a influência do dissabor e das passadas amarguras, a qual seria uma deficiência histórica e um ponto negro para a luz do meu espírito.

Irmãos meus: Oxalá possais compreender o valor de minhas palavras e ligar-me a vós, como irmão vosso na adoração de um só Deus; como irmão vosso na reforma de vossos hábitos e nas meditações de vosso espírito. Como irmão vosso no desejo e esperança de vossa parte para a aquisição das conquistas do espírito de que, com felicidade, eu desfruto, e como irmão pelo perfeito acordo de vossas vontades com a minha, podendo-se assim imprimir à marcha das cousas uma direção mais conforme com a natureza humana dignificada por uma emanação divina.

Não ignoro que esta minha fraternal demonstração terá o efeito, no primeiro momento, de uma pura ilusão de meu espírito, mas conto com Deus para dissipar este erro. Deus não me deu o poder de manifestar-me hoje para abandonar-me logo, deixando-me na impotência de dar provas de minha revelação. Deus vos olha e espera nossos olhares.

Homens dominados pela vertigem e pela cegueira pedem a continuação das honras e riquezas de que desfrutam e o direito de cuja posse se originam faltas e delitos. Homens devorados pelas paixões brutais e egoístas afirmam que nada existe além da matéria3 e que as crenças religiosas não constituem mais que mantidas aparências ou ridículas aberrações do espírito. A luta é a que distribui as honras. A luz do dia e a escuridão da noite envolvem o crápula embriagado e a criança que morre de fome.

Que demonstra tudo isso senão o horrível transtorno da dignidade dos espíritos dada pelo Criador dos espíritos? — Senão a decadência do espírito inteligente que deprime ao espírito novo!

O espírito de Deus comove-se diante desta situação e faz-se visível sua intervenção. De que maneira será esta acolhida pelos homens? Com zombarias, desgraçadamente! Mas o espírito de Deus é uma força que domina o intérprete de sua palavra e é uma luz que penetra através das trevas. Em meio da natureza humana poucos seres são favorecidos pelos dons do espírito puro, porque poucos são os que têm o valor e a vontade de desafiar as potências mundanas, ao passo que o espírito puro foge das ruidosas agitações, da dissipação e do vício para aproximar-se dos que sofrem e dos que investigam em silêncio. Nas manifestações dos dons de Deus o espírito humano nada tem que fazer, e a alma deve orar para unir-se ao pensamento do espírito puro. Durante a adoração da alma o desejo dela por conhecer a verdade é irresistível. Devido à nulidade do espírito, a luz vê-se livre dos obstáculos da imaginação e a revelação obtém-se unicamente no meio destas condições da alma e do espírito humano e as impressões do homem encontram fria a esperança ao lado  da  palavra  de Deus que a ilumina. O espírito iluminado pela palavra divina goza na solidão, porém deve sacrificar este gozo em aras da expansão do princípio de fraternidade e de caridade, visto que a ele corresponde-lhe fechar as chagas, cicatrizar as feridas, estudar as necessidades, insinuar-se nos corações, apaziguar os ódios, encobrir as vergonhas, dar brilho à esperança e afirmar a idéia da vida futura.

Todos os espíritos de Deus se reconhecem pela elevação de suas manifestações. Nenhum deles concede a seu intérprete5 a faculdade de falsear as leis que regem a natureza humana e todos procuram robustecer em si mesmo o sentimento de justiça e de abnegação.

A revelação é uma honra que Deus concede a seus filhos e manifesta-se pela inspiração do espírito no espírito; torna-se ostensiva pelo engrandecimento do desejo e da vontade; impõe-se mediante as missões confiadas aos espíritos. A revelação constitui uma parte da lei de amor que se desenvolve no meio das humanidades. Deve acrescentar-se que a revelação não pode ir mais além da compreensão de seu intermediário e que ela proporciona a luz necessária segundo as necessidades da época em que ela tem lugar. A manifestação do espírito puro é generosa, porém, permanece dentro dos limites traçados pela sabedoria e santidade de sua missão. Não associa jamais a promessa dos bens temporais com a promessa das graças merecidas com o adiantamento do espírito; não responde às perguntas ditadas pela curiosidade inconsiderada, por isso afasta-se dos intérpretes indignos e são pouco freqüentes suas manifestações. É justamente pela escassez destas manifestações que eu insisto na efetividade de minha luz. A participação de Jesus nas alegrias infinitas confere-lhe o direito de falar mais divinamente do que quando falava como filho da Terra; mas, nestas páginas, em que Jesus evoca as expansões de sua natureza humana, tem que expressar-se na forma em que o fazem os homens  perante  os  homens,   demonstrando   suas  alianças  de família, sua vaidade de filho rebelde, suas fraquezas de espírito, suas ilusões de coração como se ainda se encontrasse no mundo dos humanos.

O poder de minha voz associa-se hoje com a emanação de minhas recordações de homem. Não vos preocupeis da distância que nos separa, irmãos meus; destruí vossas crenças errôneas; levantai uma barreira intransponível entre Jesus homem, sua mãe mulher e as fábulas que têm desnaturalizado a personalidade de Deus.

No transcurso de minha vida terrena fiz discípulos e amigos, derramando palavras de paz e censurando, com a consciência de um espírito iluminado, a vaidade e a hipocrisia dessa sociedade potente e faustosa, que predominava, acendendo nos cérebros a chama do desejo para os gozos espirituais, praticando a caridade do coração com todos os enfermos, levantando a voz em defesa de todos os fracos, aproximando-se a todas as misérias, descendo a todas as vergonhas, inspirando aos pecadores o arrependimento. Por que não haveria de conseguir eu agora discípulos e amigos mediante a emanação de minha espiritualidade? Minhas palavras do tempo passado foram adulteradas ou mal compreendidas; minhas palavras de hoje se honrarão porque recebem a luz divina. Minhas palavras de outrora tiveram que esfacelar-se ao chocarem-se contra a ignorância; minhas palavras de hoje trazem atrás delas o testemunho de um Deus.

Procedamos, irmãos meus, a uma revista fácil e rápida de meus hábitos, de minhas fadigas, de meus entretenimentos, de minhas expansões fraternas, e honremo-nos mutuamente, vós por meio de uma justa atenção e eu com minhas confidências e com meu livre trabalho de espírito.

Durante uma vida humana não é possível levar-se a termo trabalhos imensos, mas a marcha no sentido do progresso pode reanimar-se sob um sopro regenerador. No período da decadência de um mundo o pensamento reformador surge de improviso, como o vasto horizonte que, ao separarem-se as nuvens, se oferece repentinamente diante de nossa vista. A atuação humana de Jesus tinha preparado o horizonte que hoje ao abrigo de sua manifestação Divina se patenteia diante dos olhares da humanidade terrestre e sua voz, hoje, na plenitude de sua potência, fará desaparecer todas as sombras que obscureceram sua aliança com Deus e com os homens. — Aliança de Deus! — Sim, porque Jesus tinha que emancipar as ordens de Deus. — Aliança com os homens! — Sim, porque Jesus vinha falar-lhes de amor, de fraternidade, de paz, de justiça, e o amor, a fraternidade, a paz e a justiça dão origem à sabedoria, à força, à ciência das alegrias futuras e dos favores de Deus. Jesus agora demonstra à posteridade sua natureza humana, dando-lhe ao mesmo tempo provas de sua existência de espírito. Repitamos, pois, as palavras pronunciadas por Jesus homem, mas acrescentemos-lhes as noções do espírito de Deus, para que vos compenetreis bem da elevada missão que Jesus veio começar como homem e que o mesmo Jesus vem agora continuar como espírito.

***

Jerusalém me atraía, não obstante as poucas probabilidades de êxito que oferecia às minhas tentativas de proselitismo. Eu me esforçava para apresentar-lhes sob alegres cores, a meus discípulos, a viagem para ali, conhecendo bem a repulsa e o terror que essa idéia lhes provocava. Pedro manifestou com gritos, como costumava, seu desagrado quando se lhe falou de voltar a Jerusalém. Os dois filhos de Zebedeu derramaram lágrimas sinceras, suplicando-me que desistisse de tal propósito. Os dois Tiagos, irmão e tio de Jesus, fizeram-lhe o completo sacrifício de sua vontade. Todos os outros deram-me a certeza de sua fidelidade e dedicação, instando comigo para que permanecesse no meio de um povo onde havia encontrado tanta docilidade e tanto amor. Cansado desta oposição, porém, resolvido a vencê-la, deixei que se acalmassem estas primeiras emoções de meus apóstolos e não lhes tornei a falar de Jerusalém.

Mas em nossas conversações, como em minhas práticas, eu dava a medida das preocupações de meu espírito, insurgindo-me contra a fraqueza dos que preferem o repouso à luta, o êxito fácil aos trabalhos do pensamento e às fadigas corporais.

“A luz, exclamava eu, deve ser espargida com profusão.

“Envergonhai-vos vós que a ocultais debaixo do alqueire, homens pusilânimes, homens de pouca fé.

“A abundância dos dons divinos vos enche de alegria, mas quando se torna necessário demonstrar a verdade com o trabalho e a graça mediante sacrifícios vós permaneceis no meio da ociosidade e do egoísmo.

“O cultivador que dá com terra estéril, leva suas esperanças para outra terra mais produtiva; pois bem, eu sou o cultivador e a terra estéril sois vós”.

O nível de meus conhecimentos não era alcançado pelas multidões; mas seguiam-me alguns discípulos mais clarividentes nas casas onde eu e meus apóstolos encontrávamos hospedagem, já seja na mesma Cafarnaum, já seja nos campos dos arredores. No meio deste círculo de íntimos eu fazia as confidências de minhas tristezas humanas e de minhas esperanças divinas. Quanto mais próxima me parecia estar minha morte, maiores eram as advertências que ela me sugeria.

Minha obra pereceria, eu o sabia, se depois de morto, Deus me não permitisse colaborar ainda nela como espírito.

Minha fé e minha confiança arrastavam a fé e confiança dos que me ouviam e entregava-me às visões serenas e doces, assim como à dolorosa perspectiva da ignomínia e do martírio. Eu imprimia na alma desses ouvintes, meus ideais e meus propósitos como esses estigmas de fogo, que jamais desaparecem, e imprimia em seus espíritos a imagem de meus olhares, que eram sempre ternos, de meu sorriso, quase imutável, de minhas maneiras e de minha delicadeza ao consolá-los e ao demonstrar-lhes meus afetos. Via neles o povo do porvir e sonhava no despertar do mundo, no êxito de minha missão, o triunfo de minha doutrina, apesar dos desatinos de meus amigos e da má-fé de meus inimigos.

Os homens, cuja crença na divindade de minha pessoa fomentava meu discípulo predileto João, eram meus próprios amigos, pouco avisados, que dariam lugar mais tarde à fundação de um culto idólatra, com o mistério da Trindade, da Encarnação e da Redenção.

Irmãos meus, convertei-vos em verdadeiros adoradores de Deus interpretando com sabedoria as leis da Natureza. Honrai o caminho do vosso espírito; acumulai provas da grandeza de Deus e rechaçai tudo o que seja contrário a esta grandeza.

Eu não discuto convosco a respeito de minha identidade, porém, emprego todas as potências de meu espírito para arrasar a falsa e irrisória denominação7 que ligaram a meu nome de homem. Vinde,  irmãos  meus,  à  casa  em  que  Jesus, enquanto espera a refeição da noite, está sentado no meio de homens ávidos de escutá-lo ainda, depois do dia passado em segui-lo e de escutá-lo, seja nas sinagogas, seja nos centros mais populosos dos lugares percorridos. A conversação gira sempre em torno das práticas recentes. Jesus tinha pronunciado as seguintes palavras depois da parábola do filho pródigo:

“A reconciliação de um pecador com Deus produz maior alegria no céu que a perseverança de dez justos”.

Agora Jesus completa seu pensamento. A natureza humana, segundo os dogmas da lei judaica, é chamada a uma recompensa estacionária no céu, ou uma condenação eterna no inferno. Porém, Jesus, de acordo com o sentimento humano que vê em Deus a onipotência unida à suprema bondade, determina contradições às suas próprias palavras para afirmar sua fé diante de seus discípulos e combater o princípio consagrado em outro lugar da lei. Porém, Jesus, de acordo com a alta inteligência de Deus, abandona a letra dogmática das baixas regiões e expande seu espírito para o contato dos espíritos facilmente iluminados por ele.

— “O filho pródigo, disse, é o pecador levado ao arrependimento, é o homem enfermo restabelecido na posse de suas forças e da saúde. Expliquei-me para fazer compreender as delícias da reconciliação, mas escutai o verdadeiro sentido de minhas palavras.

“O destino do homem chama-o a numerosos trabalhos e sua liberdade opera-se lentamente por meio das ligações de seu espírito e da expansão de suas faculdades.

“Na vida carnal esse destino e essa liberdade aparecem agora enfraquecidos, porém, tornar-se-ão corporalmente mais fortes e desembaraçados dos terrores imaginários do espírito. A demora vê-se com freqüência dilatada pela negligência e a emancipação pelo amor sensual.

“A justiça divina deixa ao homem o livre emprego de suas forças, porém, se ele abusa delas para empobrecer sua alma, faz-lhe sofrer o peso do fardo de suas misérias e de suas dores, depois de tê-lo ajudado por um momento.

“Em um estado mais avançado do espírito humano há espíritos que podem permanecer inativos, devido a ligações perniciosas ou fraquezas morais, no cumprimento de uma elevada tarefa. Eis os justos de que quis falar.

“Em meio da degradante humilhação da natureza humana, um espírito pode tornar-se repentinamente heróico na justa apreciação dos dons de Deus. Eis o filho pródigo.

“Merece muito de Deus o que se levanta com coragem; o que desenraíza a árvore velha e lança-a ao fogo; o que lava seu lugar para que nada do passado se note nele; o que do fundo do abismo sai à luz do sol no pleno domínio de sua vontade e mediante seus esforços.

“O Festim, o Céu, é a festiva acolhida que se faz ao pecador arrependido em sua chegada entre os espíritos do Senhor. A árvore desarraigada é o pecado, o lugar lavado é o coração que estava manchado; o abismo é a morte da alma, como a luz é a sua ressurreição.

“Na abundância dos consolos dados a mãos cheias aos aflitos, Jesus havia dito: Felizes os pobres de espírito, porque o reino de meu Pai pertence-lhes”.

Volto a tratar desta expressão para fazer ressaltar seu alcance:

“Os pobres de espírito são os que fogem do poder e da dominação dos gozos mundanos e do repouso egoísta na posse dos bens da terra.

“A pobreza de espírito proporciona o sentimento da humildade para diminuir-se diante dos homens, elevando-se espiritualmente, para desprezar todas as demências do orgulho e da presunção. Felizes, pois, exclama ainda Jesus, os pobres de espírito! Felizes também os que compreendem e praticam a palavra de Deus.

“— Quem de vós outros, amigos meus, não quererá contar-se entre os pobres de espírito, desde que a modéstia e a força no sacrifício os coloca acima dos demais homens?”

Jesus define depois uma palavra lançada por ele em um momento de indignação.

A multidão apartou-se e um homem do povo se aproximou de Jesus e disse-lhe:

“Mestre: Pagaste tu o tributo a César? — Se o pagaste, por que o fizeste desde que não reconheces alguma outra autoridade senão a de Deus? — Se não pagaste, por que proíbes a rebelião, se dás o exemplo dela?”

Jesus compreendeu que tinha que tratar com um desses homens grosseiros e maus, cujo desejo era obrigá-lo a manifestações contrárias ao governo estabelecido. Mas conservou a calma exterior, apesar da indignação que fervia em seu interior, e respondeu:

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Os discípulos sorriam-se ao lembrarem-se do gesto e acento do mestre, tomado assim tão de surpresa; em seguida a palavra de Jesus torna-se grave e tira desta resposta motivo de ensinamentos cheios de moralidade.

“Façamos depender nossa felicidade, disse, do cumprimento de nossos deveres, quaisquer que sejam as responsabilidades que resultem daí.

“Caminhemos sem preocupar-nos dos defeitos alheios, a fim de nos livrarmos de nossas imperfeições, para a liberdade de nossa alma.

“A fraqueza dos homens arrasta-os a julgar as intenções dos outros e apóiam-se na possibilidade da fraude, para eles fraudarem; e falam de injustiça enquanto fazem transbordar a injustiça de seus corações e de seus lábios. Há quem veja um argueiro no olho de seu vizinho e não enxergue uma trave no seu; outros queixam-se do egoísmo e do abandono, ao passo que fecham a alma aos lamentos dos infelizes, ao desespero dos náufragos, à vergonha do arrependimento dos pecadores.

“Eu vos digo, amigos meus, a probidade honra o espírito, assim como a delicadeza nos conceitos honra o coração.

“Pagai vossas dívidas, sede fiéis a vossos compromissos, tanto com os justos como com os injustos; com os fracos e com os deserdados, do mesmo modo que com os fortes e os poderosos; não condeneis, não digais Raca a vosso irmão, e confirmai vossa fé adorando a Deus com a prece, a prece de pensamentos, de palavras e de obras.

“O pensamento deve ser o guia da palavra e das obras, o fruto da resolução, rogai juntos ou separadamente, mas fazei-o sem ostentação.

“A prece do orgulhoso se assemelha à do hipócrita.

“O hipócrita é sempre encontrado nos primeiros lugares na Sinagoga, para que os outros vejam sua fronte inclinada e suas faces pálidas, para que se diga que jejuou e que ora com fervor.

“O orgulhoso ajoelha-se diante de Deus, porém seu espírito está cheio de planos para conseguir deslumbrar aos outros e pede a graça expondo os direitos que tem para receber a graça.

“Senhor, diz ele, a correção de minha conduta e a elevação de meus desígnios merecem que tu lhes prestes tua sanção e teu apoio. Nunca prevariquei nas leis de meus pais; nada subtraí da herança paterna em detrimento de meus irmãos; eduquei minha família no temor e na justiça e emprego meus haveres em aliviar as necessidades dos pobres. Sou forte e poderoso, porém concedo minha proteção aos fracos, sinto-me inclinado para as honras, porém humilho-me diante de ti.

“Digo-vos, amigos meus, a oração destes homens é repelida. Deus acolhe em troca a prece do pecador que honra seu arrependimento com a humildade de sua presença e com a simplicidade de suas palavras.

“Deus meu, diz ele, eu adoro-te em todos os teus decretos e peço-te o perdão de minhas culpas.

“Faze sentir o peso de tuas mãos sobre teu servo, mas concede-lhe a esperança de poder abrandar tua justiça e de merecer tua misericórdia.

“Digo-vos, amigos meus, este homem gozará de sua reconciliação com Deus, tirando luz de sua própria fé e arrependimento.

“A prece em ação é o trabalho, e a conformidade é a esmola, e o sacrifício por amor de Deus é a penitência e a expiação para remediar o dano causado a si mesmo e ao próximo com o pecado.

“Fazei aos outros o que desejais que se vos faça a vós mesmos e encaminhai as almas para Deus com a edificação de vossa vida.

“Honrai-me porque eu não me encontrarei sempre em vosso meio, mas recordai-vos sempre destas palavras: eu voltarei e estabelecerei minha lei e todos os homens acreditarão em mim e não haverá senão um só rebanho e um só pastor, porque Deus não me mandou para um só tempo senão para os séculos futuros.

“Eu sou aquele que fui, que é e que será e digo:

“Feliz o homem que renascer com novas forças, visto que terá semeado para colher.

“O homem renascerá até que consiga libertar-se da escravidão da matéria, pela abundância dos desejos espirituais. Crede e sereis fortes para as lutas do espírito com a matéria.”

Irmãos meus, as predicações de Jesus provocam dúvidas pelas contradições que nelas encontra o observador e ele converte-se em um personagem obscuro cujos atos participam do humano e do divino ao mesmo tempo.

Desejo estabelecer minha personalidade sobre a Terra de maneira a não deixar a menor fraqueza de espírito referente à minha doutrina e à minha natureza. Vou dar o resumo sucinto de meus ensinamentos para libertar minha pessoa dessa falsa luz no meio da qual a mantêm os idólatras e os mal intencionados. Escutai-o, pois, todavia, a Jesus e esta vez seja ainda sobre a montanha, como quando, só com Pedro, João e Mateus, explicou as manifestações dos espíritos da Terra, pela atração da alma e do poder da vontade.

Nesses breves ensinamentos Jesus indicou a seus apóstolos o meio de estabelecer comunicação com os espíritos livres da envoltura corporal8 e iniciou-os na felicidade de experimentar o contato divino, adorando o fogo da vida e pedindo-lhe a liberdade mais além dos horizontes humanos.

Convida-os como a um banquete fraternal com os espíritos que viveram na Terra e que dirigem-lhe agora um olhar de comiseração.

“Elias, Elias, exclama ele, eu te chamo e espero a prova de tua presença.

“Honra a ti, Elias, e que Deus nos permita comunicar-nos aqui contigo, nesta solidão, para efetuar a aliança de nossos espíritos e a emanação de nossos desejos.”

Durante o êxtase em que caiu minha alma, parecia que raios de luz me rodearam e me confundiram com os tons de fogo das nuvens douradas e purpúreas que se espalhavam sobre nossa cabeça e a alegria que inundava meu semblante comunicou-se aos apóstolos, que exclamaram:

“Elias está entre nós, o Senhor no-lo mandou, seja bendito seu santo nome”.

Ao dizer isto caíram de joelhos, com o rosto para terra, dominados por uma mistura de medo e de adoração, de cujo estado tirei-os com estas palavras:

“Levantai-vos, amigos meus, e honrai a graça como os espíritos fortes.

“A justiça de Deus vos elevou acima dos demais homens para dar-vos a virtude de instruí-los e de consolá-los, nada digais por ora a respeito do que acabais de ver; poucos vos acreditarão e muitos zombarão e os insultarão; mas fazei compreender a todos que o fervor atrai a graça e que a fé levanta a vontade”.

Jesus preparou-se em seguida para o sermão da montanha no meio de uma compacta multidão.

Ele assentou-se e seus discípulos, assentados como ele, defendiam-no dos manifestantes demasiado entusiastas.

As mulheres e as crianças tomaram os primeiros lugares e a palavra do Mestre as autorizou a tomá-los.

Os homens de pé dominavam o centro da assembléia, de maneira que as palavras tinham que chegar a todos e que a ordem se demonstrava como em uma casa bem governada, que se prepara para receber hóspedes muito desejados.

A tarde estava deliciosa, os semblantes eram iluminados pelos últimos raios resplandecentes; os peitos se dilatavam com as primeiras brisas da noite e as emanações da florida natureza aumentavam os atrativos daquela reunião.

Jesus estava sorridente, seus olhares repousavam sobre olhares amigos; sua palavra começou ensaiando-se em incutir entre os ouvintes idéias de consolo e de esperanças, percorrendo com o pensamento o vasto campo dos favores divinos e dos deveres do homem.

“Amai-vos uns aos outros e meu Pai vos amará.

“Pedi a Deus o que vos faça falta e não deixeis jamais entibiar vossa confiança.

“Aproximai-vos ao que sofre e não lhe digais que merece seus sofrimentos; procurai, pelo contrário, aliviá-lo. A verdadeira caridade não olha para o passado, fixando-se tão-somente no presente.

“Fechai vossa alma à tristeza e por maior que seja o rigor de vossos inimigos, pensai na recompensa que se vos há prometido se fordes pacientes e misericordiosos.

“A Terra é um lugar de desterro para os que têm direito a uma posição melhor; a Terra é um lugar de purificação para a maior parte; mas todos devem ajudar-se para conhecer o patrocínio da fraternidade e o princípio do amor universal.

“A liberdade de muitos tem lugar mediante o amor; o egoísta será castigado, e muito se perdoará ao que muito tenha amado.

“Honrai a virtude, desmascarai o vício; mas perdoai aos que vos tenham ofendido, para que a vós também seja perdoado na vida futura.

“Não invejeis o lugar de honra, Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros, na casa de meu Pai; quem quer que se exalte será humilhado e somente o humilde será glorificado.

“Ide à casa do pobre e abraçai-o como a vosso irmão. Desdenhai as distinções das riquezas e mostrai-vos superiores à má fortuna.

“Diminuí-vos para fazer sobressair aos outros, porém não imiteis aos hipócritas, que andam atrás dos elogios com as aparências de modéstia.

“Felizes os que choram por causa de injustiças dos homens, porque a justiça de Deus os fará resplandecer.

“Felizes os que desejam a vida eterna, porque ela os iluminará desde já. Felizes os que têm fome e sede, porque eles serão saciados.

“Felizes os que compreendem e praticam a palavra de Deus.

“Aprendei, amigos meus, a suportar a adversidade com coragem. Deus é a fonte das alegrias da alma e a alma eleva-se com as privações dos bens temporais, buscando os dons de Deus com o desprendimento das ambições terrestres. Facilitai os dons de Deus com o desprendimento das ambições e orai com um coração devorado pelos desejos espirituais. Vosso Pai que está nos céus encontra-se também entre vós, ouve vossa oração e acolherá vosso pedido se ele estiver de acordo com o que deveis a Deus e aos homens.

“Eu vos digo, não cai um cabelo de vossas cabeças sem a vontade do Pai Celestial, e a Divina Providência que alimenta as aves, jamais vos abandonará, se tiverdes fé e amor.

“Repito-vos outra vez. O poder de Deus manifesta-se nas menores cousas, como também nas maiores, e seu olhar penetra vosso pensamento no mesmo instante que percorre a imensidade da Criação.

“A palavra de Deus será espalhada sobre toda a Terra. Os que a procuram a encontrarão, porque a Terra está destinada a progredir por meio da palavra de Deus, à qual todos têm direito.

“Ide, pois, meus fiéis, dirigi-vos à erva em flor.

“Apascentai minhas ovelhas. A erva tornará a florescer eternamente, porquanto a lei de Deus diz que o espírito é imortal.

“A geração presente será a luz para a vindoura.

“Os homens de hoje verão o reino de Deus, porque o homem tem que renascer, e a Terra deve receber ainda a semente da palavra de Deus.

“Honrai minhas demonstrações, praticando o que vos digo, e não me pergunteis cousas que vós não podeis compreender.

“Permanecei presos com firmeza a estes dois mandamentos: o amor para com Deus, o amor para com os homens.

“Nisto se encerra toda a lei e todos os profetas.”

Irmãos meus, a doutrina de Jesus é hoje a mesma que ele predicou na montanha. Todos os que deixam de pôr em prática o amor e a fraternidade, não são discípulos do Messias.

Acostumai-vos a compreender a extensão e a aplicação da fé, do amor, da solidariedade, da justiça e da doçura, para que a graça das emanações espirituais desça sobre vós

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